TÍTULO: COMO DEUS FALA COM OS SEUS FILHOS?
Texto base: João 10:1-30
INTRODUÇÃO
Uma das perguntas mais comuns entre os cristãos é: “Como posso ouvir a voz de Deus?”
Essa pergunta acompanha pessoas que estão iniciando a caminhada com Cristo e também pessoas que já caminham com Ele há muitos anos.
Muitos imaginam que ouvir Deus seja uma experiência reservada para alguns poucos escolhidos. Pensam que Deus fala apenas com profetas, missionários, pastores ou pessoas que vivem experiências extraordinárias.
Outros acreditam que ouvir a voz de Deus significa necessariamente receber visões, sonhos ou manifestações sobrenaturais.
Entretanto, quando abrimos as Escrituras, percebemos que Jesus trata esse assunto de maneira completamente diferente.
Para Cristo, ouvir a voz de Deus não era uma exceção. Era uma característica normal daqueles que pertenciam ao seu rebanho.
A questão nunca foi se Deus deseja falar. A questão é se compreendemos como essa comunhão foi restaurada através da Nova Aliança.
A Bíblia inteira conta uma única história.
Ela começa com um homem vivendo em perfeita comunhão com Deus.
Depois apresenta um homem que perde essa comunhão.
Em seguida mostra Deus iniciando uma grande obra de redenção.
E termina apresentando uma humanidade reconciliada com o Pai através do Filho.
Quando entendemos essa história, percebemos que ouvir a voz de Deus não é apenas um assunto sobre direção.
É um assunto sobre relacionamento.
É impossível compreender corretamente esse tema sem olhar para Cristo, porque toda a revelação do Pai converge para Ele. O objetivo da voz de Deus nunca foi apenas transmitir informações ou orientar decisões. Desde o princípio, Deus fala para revelar a si mesmo, formar um povo semelhante ao seu Filho e conduzir seus filhos à comunhão com Ele.
1. A VOZ DE DEUS SEMPRE NASCE DO RELACIONAMENTO
Jesus inicia o capítulo de João 10 utilizando uma imagem muito conhecida por aqueles que o ouviam. Na Palestina do primeiro século era comum que vários rebanhos permanecessem reunidos durante a noite em um mesmo aprisco. Na manhã seguinte, cada pastor aproximava-se da porta e chamava suas ovelhas. Curiosamente, não era necessário separá-las manualmente. Elas reconheciam a voz daquele que as havia conduzido diariamente e, espontaneamente, saíam para segui-lo.
Foi exatamente essa figura que Jesus utilizou.
João 10:3-5
“O porteiro abre-lhe a porta, e as ovelhas ouvem a sua voz. Ele chama as suas ovelhas pelo nome e as leva para fora. Depois de conduzir para fora todas as suas ovelhas, vai adiante delas, e estas o seguem, porque conhecem a sua voz. Mas nunca seguirão um estranho; na verdade, fugirão dele, porque não conhecem a voz de estranhos.”
Perceba que Jesus não ensina primeiro como reconhecer a voz.
Antes disso, Ele revela quem são aqueles que a reconhecem.
As ovelhas ouvem porque pertencem ao Pastor.
O relacionamento antecede o discernimento.
Essa ordem é extremamente importante porque corrige uma compreensão muito comum entre os cristãos. Muitas pessoas procuram métodos para ouvir Deus, quando a própria Escritura aponta primeiro para uma vida de comunhão com Cristo.
A voz do Pastor não é descoberta por meio de uma técnica espiritual, mas por uma caminhada diária ao lado dele.
Quanto mais convivemos com alguém, mais facilmente reconhecemos sua voz. Uma criança não precisa fazer um curso para distinguir a voz de seus pais. Ela aprende isso naturalmente porque vive em constante relacionamento com eles.
Da mesma forma, o cristão amadurece espiritualmente à medida que cresce em comunhão com Cristo. O reconhecimento da voz de Deus deixa de ser um acontecimento raro e passa a fazer parte da vida daqueles que caminham com o Senhor.
Essa realidade não nasceu no Novo Testamento. Ela era o propósito eterno de Deus desde o princípio.
No jardim do Éden, antes da queda, Adão vivia em plena comunhão com o Senhor. O pecado não destruiu apenas a santidade do homem; ele rompeu a comunhão que existia entre Criador e criatura. A partir daquele momento, a humanidade passou a viver distante daquela intimidade para a qual havia sido criada.
Durante todo o Antigo Testamento, Deus continuou falando. Ele levantou profetas, sacerdotes e homens piedosos para comunicar sua vontade. Entretanto, esses episódios apontavam para algo muito maior. Eles anunciavam o dia em que Deus restauraria definitivamente essa comunhão através do seu Filho.
O autor da carta aos Hebreus declara:
Hebreus 1:1-2
“Há muito tempo Deus falou muitas vezes e de várias maneiras aos nossos antepassados por meio dos profetas, mas nestes últimos dias falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas e por meio de quem fez o universo.”
Esse texto muda completamente a nossa perspectiva.
A maior revelação de Deus não foi uma experiência extraordinária.
Foi Cristo.
Antes de procurarmos maneiras pelas quais Deus fala, precisamos compreender que Deus já falou definitivamente em seu Filho. Toda voz que procede do Espírito Santo conduz para Cristo, glorifica Cristo e forma Cristo em nós.
POR ISSO, OUVIR A VOZ DE DEUS NUNCA PODE SER SEPARADO DA COMUNHÃO COM JESUS.
Quando Cristo ocupa o centro da nossa vida, nossa sensibilidade espiritual começa a ser transformada. Passamos a discernir aquilo que antes ignoráva-mos. Não porque nos tornamos pessoas extraordinárias, mas porque o próprio Espírito Santo passa a operar em nosso interior conduzindo-nos à verdade.
É exatamente isso que Jesus promete aos seus discípulos.
João 16:13-14
“Mas quando o Espírito da verdade vier, ele os guiará a toda a verdade. Não falará de si mesmo; falará apenas o que ouvir e anunciará a vocês o que está por vir. Ele me glorificará, porque receberá do que é meu e o tornará conhecido a vocês.”
Observe o propósito da atuação do Espírito Santo.
Ele não veio produzir uma espiritualidade independente de Cristo.
Ele veio revelar o Filho.
ISSO SIGNIFICA QUE TODA DIREÇÃO GENUÍNA DO ESPÍRITO PRODUZIRÁ UM AMOR MAIOR POR CRISTO, UMA OBEDIÊNCIA MAIS PROFUNDA À SUA PALAVRA E UM DESEJO CRESCENTE DE VIVER PARA A GLÓRIA DE DEUS.
É justamente por isso que a voz de Deus não pode ser reduzida a um conjunto de impressões, sentimentos ou experiências subjetivas. A voz do Senhor sempre estará em perfeita harmonia com aquilo que Ele já revelou nas Escrituras e com a obra que realiza em nós por meio do Espírito Santo.
Quanto mais conhecemos o Pastor, mais reconhecemos sua voz.
Quanto mais permanecemos em Cristo, mais naturalmente discernimos sua direção.
Porque, no Reino de Deus, ouvir a voz do Senhor não começa com uma técnica. Começa com um relacionamento.
2. COMO DEUS FALA COM OS SEUS FILHOS?
Depois de compreendermos que a voz de Deus nasce de um relacionamento restaurado em Cristo, surge uma pergunta natural: de que maneira Deus fala com os seus filhos hoje?
ATOS 10: 3-5
Um dia, por volta das três horas da tarde, durante uma visão, esse homem viu claramente um anjo de Deus que se aproximou dele e lhe disse:
4— Cornélio! Este, fixando nele os olhos e possuído de temor, perguntou:
— O que é, Senhor? E o anjo lhe disse:
— As suas orações e as suas esmolas subiram para memória diante de Deus. 5Agora envie mensageiros a Jope e mande chamar Simão, que também é chamado de Pedro.
10Estando com fome, quis comer; mas, enquanto lhe preparavam a comida, sobreveio-lhe um êxtase. 11Viu o céu aberto e um objeto como se fosse um grande lençol, que descia do céu e era baixado à terra pelas quatro pontas, 12contendo todo tipo de quadrúpedes, répteis da terra e aves do céu. 13E ouviu-se uma voz que se dirigia a ele:
— Levante-se, Pedro! Mate e coma.
14Mas Pedro respondeu:
— De modo nenhum, Senhor! Porque nunca comi nada que fosse impuro ou imundo.
15Pela segunda vez, a voz lhe falou:
— Não considere impuro aquilo que Deus purificou.
16Isso aconteceu três vezes, e, em seguida, aquele objeto foi levado de volta para o céu.
Os enviados de Cornélio chegam a Jope
17Enquanto Pedro estava perplexo sobre qual seria o significado da visão, eis que os homens enviados por Cornélio, tendo perguntado pela casa de Simão, pararam junto à porta. 18Chamando, perguntaram se ali estava hospedado Simão, que também é chamado de Pedro.
19Enquanto Pedro meditava a respeito da visão, o Espírito lhe disse:
— Estão aí três homens à sua procura. 20Portanto, levante-se, desça e vá com eles, sem hesitar; porque eu os enviei.
Essa pergunta precisa ser respondida pelas Escrituras e não pelas nossas experiências pessoais. Quando permitimos que experiências se tornem a referência principal, corremos o risco de construir expectativas que Deus nunca prometeu. Alguns passam a acreditar que Deus sempre falará por sonhos. Outros esperam visões. Há quem procure sinais em todas as circunstâncias da vida. Outros vivem dependendo de alguém que lhes diga o que Deus está falando.
Entretanto, o Novo Testamento apresenta um caminho muito mais sólido. Deus continua sendo livre para agir de maneiras extraordinárias, mas Ele estabeleceu meios ordinários e constantes pelos quais conduz os seus filhos. O problema é que, muitas vezes, esperamos Deus falar apenas de maneiras espetaculares e deixamos de perceber a forma como Ele normalmente conduz aqueles que pertencem ao seu rebanho.
O primeiro e principal meio pelo qual Deus fala é a sua própria Palavra.
Toda a Escritura foi inspirada pelo Espírito Santo e continua sendo o fundamento da fé da Igreja. Ela não é apenas um registro histórico do que Deus fez no passado. Ela permanece viva porque o Deus que falou continua sendo o mesmo.
Paulo escreve:
2 Timóteo 3:16-17
“Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra.”
Isso significa que nenhuma direção espiritual legítima poderá contradizer aquilo que Deus já revelou nas Escrituras. O Espírito Santo nunca conduzirá alguém para um caminho contrário à Palavra que Ele mesmo inspirou.
Essa verdade nos protege de muitos enganos.
Vivemos em um tempo em que muitas pessoas procuram uma palavra nova enquanto negligenciam a Palavra que Deus já lhes entregou. Buscam revelações extraordinárias, mas não dedicam tempo para conhecer as Escrituras. Esperam respostas específicas para decisões da vida, mas ignoram princípios claros que Deus já estabeleceu.
A maturidade espiritual começa quando entendemos que a Bíblia não é apenas um livro para ser consultado em momentos de dificuldade.
ELA É A VOZ PERMANENTE DE DEUS formando Cristo em nós.
Entretanto, Deus não fala apenas por meio da Palavra escrita. O mesmo Espírito que inspirou as Escrituras habita hoje em cada filho de Deus.
Jesus prometeu aos seus discípulos:
João 14:26
“Mas o Conselheiro, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ensinará a vocês todas as as coisas e fará vocês lembrarem tudo o que eu lhes disse.”
Perceba que o Espírito Santo não veio substituir Cristo nem criar uma nova mensagem. Sua missão é lembrar aquilo que Cristo ensinou, iluminar o entendimento da Igreja e aplicar a Palavra ao coração dos filhos de Deus.
É exatamente por isso que muitas vezes, durante a leitura da Bíblia, um texto conhecido passa a produzir uma compreensão completamente nova. O versículo não mudou. Quem está operando é o Espírito Santo, tornando viva aquela verdade para uma situação específica da nossa caminhada.
Esse é um dos modos mais comuns pelos quais Deus dirige seus filhos.
Há momentos em que estamos orando sobre determinada situação e, durante a leitura das Escrituras, o Senhor ilumina um texto que responde exatamente à necessidade do nosso coração. Não se trata de abrir a Bíblia aleatoriamente procurando uma frase isolada. Trata-se da atuação do Espírito Santo aplicando a Palavra de Deus ao nosso interior.
Além disso, Deus também conduz seus filhos por meio da paz produzida pelo Espírito Santo.
Essa paz não deve ser confundida com tranquilidade emocional. Muitas vezes, obedecer a Deus produz medo, insegurança e desafios exteriores. A paz bíblica é mais profunda do que uma sensação. Ela nasce da convicção de que estamos caminhando segundo a vontade do Pai.
Paulo escreve:
Colossenses 3:15
“Que a paz de Cristo seja o juiz em seu coração, visto que vocês foram chamados para viver em paz, como membros de um só corpo. E sejam agradecidos.”
Observe a expressão utilizada por Paulo: “a paz de Cristo seja o juiz”. A ideia é de alguém que decide uma questão. O Espírito Santo produz uma convicção interior que confirma a direção de Deus, sempre em harmonia com a Palavra e nunca em contradição com ela.
Outro meio pelo qual Deus fala é através do corpo de Cristo.
Vivemos em uma cultura extremamente individualista, onde muitos acreditam que não precisam da Igreja para discernir a vontade de Deus. Entretanto, o Novo Testamento apresenta uma realidade completamente diferente. Deus distribuiu dons à Igreja para edificação mútua. Conselhos piedosos, ensino fiel das Escrituras e a comunhão entre irmãos fazem parte do modo como Deus cuida do seu povo.
Efésios 4:11-13
“E ele designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com o fim de preparar os santos para a obra do ministério, para que o corpo de Cristo seja edificado, até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus e cheguemos à maturidade…”
Isso nos lembra que ouvir a voz de Deus nunca deve nos afastar da Igreja. Pelo contrário, quanto mais amadurecemos espiritualmente, mais valorizamos o corpo de Cristo e reconhecemos que Deus também utiliza irmãos maduros para confirmar, corrigir e fortalecer nossa caminhada.
Assim percebemos que Deus continua falando hoje. Não porque tenha mudado sua maneira de agir, mas porque continua conduzindo seus filhos através da Palavra, do Espírito Santo, da comunhão da Igreja e de uma vida diária de relacionamento com Cristo.
É nesse ambiente de comunhão que aprendemos a discernir sua voz com clareza.
3. POR QUE MUITOS CRISTÃOS DIZEM QUE DEUS NÃO FALA?
Depois de compreendermos que Deus continua falando aos seus filhos, surge outra pergunta importante: por que tantos cristãos afirmam que nunca conseguem ouvir a voz de Deus?
A resposta para essa pergunta não está na disposição de Deus em falar, mas na forma como muitas vezes esperamos que Ele fale.
EXISTE UMA TENDÊNCIA NATURAL DO CORAÇÃO HUMANO DE ASSOCIAR A VOZ DE DEUS APENAS A ACONTECIMENTOS EXTRAORDINÁRIOS.
Esperamos que Deus fale através de sonhos, visões, profecias ou manifestações sobrenaturais.
Certamente, Deus é soberano e pode utilizar qualquer um desses meios. A própria Escritura registra diversas ocasiões em que o Senhor se revelou dessa maneira. Contudo, quando transformamos essas experiências em regra, corremos o risco de desprezar aquilo que Deus faz diariamente.
O problema não é que Deus tenha deixado de falar.
O PROBLEMA É QUE MUITAS VEZES ESTAMOS ESPERANDO UMA FORMA de comunicação diferente daquela que Ele normalmente utiliza.
Foi exatamente isso que aconteceu com o povo de Israel nos dias de Jesus.
ELES AGUARDAVAM SINAIS EXTRAORDINÁRIOS QUE CONFIRMASSEM A CHEGADA DO MESSIAS, ENQUANTO O PRÓPRIO FILHO DE DEUS CAMINHAVA ENTRE ELES, ENSINANDO, CURANDO, LIBERTANDO E REVELANDO O PAI.
Estavam tão presos às suas expectativas que não reconheceram a maior manifestação de Deus diante dos seus olhos.
Jesus declarou:
João 5:39-40
“Vocês estudam cuidadosamente as Escrituras, porque pensam que nelas vocês têm a vida eterna. E são as Escrituras que testemunham a meu respeito; contudo, vocês não querem vir a mim para terem vida.”
Essas palavras revelam um perigo que continua existindo hoje. É possível conhecer muitas informações sobre Deus e, ao mesmo tempo, viver distante da comunhão com Cristo. É possível desejar experiências espirituais enquanto negligenciamos o relacionamento diário com o Senhor.
ALÉM DISSO, MUITAS VEZES DEUS FALA ATRAVÉS DE PEQUENOS DIRECIONAMENTOS QUE CONSIDERAMOS SIMPLES DEMAIS PARA TEREM ORIGEM NELE.
O Espírito Santo traz ao coração o desejo de ligar para alguém, de pedir perdão, de ajudar uma pessoa, de interromper um caminho errado ou de permanecer firme em uma decisão já revelada pela Palavra. São direções discretas, mas profundamente transformadoras.
Foi assim que Jesus viveu durante todo o seu ministério terreno.
ELE NÃO CAMINHAVA MOVIDO PELA PRESSÃO DAS MULTIDÕES NEM PELAS EXPECTATIVAS DAS PESSOAS. Sua vida era conduzida pela vontade do Pai.
No tanque de bethesda somente um foi curado.
João 5:19
“Jesus lhes deu esta resposta: ‘Em verdade lhes digo que o Filho não pode fazer nada de si mesmo; só pode fazer o que vê o Pai fazer, porque o que o Pai faz o Filho também faz.'”
Cristo vivia em constante comunhão com o Pai. Cada palavra, cada milagre e cada decisão eram expressão dessa perfeita unidade. Isso nos mostra que ouvir Deus não é viver procurando acontecimentos extraordinários, mas desenvolver uma comunhão tão profunda que aprendemos a reconhecer sua direção nas circunstâncias mais comuns da vida.
Há ainda outro obstáculo que impede muitas pessoas de discernirem a voz do Senhor: o excesso de outras vozes.
Vivemos cercados por opiniões, notícias, redes sociais, entretenimento e inúmeras distrações. O coração torna-se tão ocupado que perde a capacidade de permanecer em silêncio diante de Deus. Não é porque o Senhor deixou de falar, mas porque outras vozes passaram a ocupar espaço demais em nossa mente.
O profeta Elias experimentou algo semelhante.
Depois do vento forte, do terremoto e do fogo, a presença do Senhor manifestou-se em uma brisa suave.
1 Reis 19:11-12
“O Senhor lhe disse: ‘Saia e fique no monte, na presença do Senhor, pois o Senhor vai passar’. Então veio um vento fortíssimo que separou os montes e esmigalhou as rochas diante do Senhor, mas o Senhor não estava no vento. Depois do vento houve um terremoto, mas o Senhor não estava no terremoto. Depois do terremoto houve um fogo, mas o Senhor não estava nele. E depois do fogo houve o murmúrio de uma brisa suave.”
Esse texto não ensina que Deus fala apenas de maneira suave, mas nos lembra que nem sempre Ele se manifesta conforme as expectativas humanas. Muitas vezes estamos procurando Deus no extraordinário enquanto
ELE DESEJA FORMAR EM NÓS UM CORAÇÃO SENSÍVEL PARA RECONHECER SUA PRESENÇA NO COTIDIANO.
Quanto mais Cristo ocupa o centro da nossa vida, mais aprendemos a discernir sua voz.
4. A OBEDIÊNCIA TORNA O NOSSO CORAÇÃO MAIS SENSÍVEL À VOZ DE DEUS
Uma das maiores verdades da vida cristã é que Deus não nos chama apenas para ouvir sua voz, mas para responder a ela.
O propósito da revelação nunca foi aumentar nosso conhecimento. O propósito da revelação é produzir transformação.
Por isso, toda vez que Deus fala, Ele também nos convida à obediência.
Essa obediência não é um meio para conquistar o amor de Deus. Ela é a resposta natural de quem já foi alcançado por esse amor.
Jesus afirmou:
João 14:21
“Quem tem os meus mandamentos e lhes obedece, esse é o que me ama. Aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me revelarei a ele.”
Observe a profundidade dessa promessa.
À medida que caminhamos em obediência, Cristo continua se revelando a nós. Não para que seu amor aumente, mas porque nossa comunhão com Ele se torna cada vez mais profunda.
É exatamente por isso que pequenas obediências possuem enorme importância no Reino de Deus.
Muitas pessoas esperam grandes direções para tomar grandes decisões, mas ignoram as pequenas orientações que Deus já lhes deu. Entretanto, é justamente na fidelidade diária que nosso coração é moldado.
ABRA A BÍBLIA – ORE – FALE ISSO – LIGUE – OFERTE – VÁ POR OUTRA RUA – FIQUE EM CASA – coisas pequenas que sendo somadas a vida de Deus que vai crescendo.
Jesus declarou:
Lucas 16:10
“Quem é fiel no pouco também é fiel no muito, e quem é desonesto no pouco também é desonesto no muito.”
A fidelidade cotidiana prepara o coração para responsabilidades maiores.
Foi assim com Samuel. Quando ainda era menino, ele não reconhecia a voz do Senhor. Precisou aprender a discerni-la. Depois daquele encontro, sua vida foi marcada por uma crescente sensibilidade espiritual.
1 Samuel 3:10
“O Senhor voltou a chamá-lo como nas outras vezes: ‘Samuel! Samuel!’ Então Samuel disse: ‘Fala, pois o teu servo está ouvindo’.”
Essa resposta revela uma disposição que todos nós precisamos cultivar.
ANTES DE DESEJAR NOVAS PALAVRAS DE DEUS, PRECISAMOS APRENDER A RESPONDER ÀQUELAS QUE ELE JÁ NOS ENTREGOU.
A obediência fortalece nossa comunhão porque nos mantém caminhando na direção que o Senhor está conduzindo.
QUANTO MAIS PERMANECEMOS EM CRISTO, MAIS SUA VONTADE PASSA A MOLDAR NOSSOS PENSAMENTOS, NOSSOS DESEJOS E NOSSAS DECISÕES.
5. CRISTO É A PALAVRA DEFINITIVA DO PAI
O maior presente que Deus nos deu não foi apenas a capacidade de ouvir sua voz.
O maior presente foi seu próprio Filho.
Toda a Escritura converge para Cristo.
Toda atuação do Espírito Santo aponta para Cristo.
Toda direção genuína de Deus conduz para Cristo.
O Evangelho não nos chama a viver procurando experiências espirituais desconectadas da pessoa de Jesus. Pelo contrário, ele nos conduz a uma comunhão tão profunda com o Filho que aprendemos a reconhecer naturalmente a voz do nosso Pastor.
João inicia seu Evangelho declarando:
João 1:1
“No princípio era aquele que é a Palavra. Ele estava com Deus, e era Deus.”
Cristo não apenas comunica a vontade do Pai. Ele é a própria revelação do Pai. Por isso, quanto mais conhecemos Jesus, mais compreendemos o coração de Deus. Quanto mais permanecemos em sua Palavra, mais nossa mente é renovada. Quanto mais somos conduzidos pelo Espírito Santo, mais nos tornamos semelhantes ao Filho.
É exatamente esse o propósito da Nova Aliança.
Paulo escreve:
Romanos 8:14
“Porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus.”
SER GUIADO PELO ESPÍRITO NÃO É UMA EXPERIÊNCIA RESERVADA PARA UMA PEQUENA ELITE ESPIRITUAL. É uma característica daqueles que pertencem a Cristo. O Espírito Santo habita em nós para formar a imagem do Filho, conduzir nossa caminhada e produzir uma vida que glorifique o Pai.
CONCLUSÃO
Quando perguntamos “como Deus fala?”, a resposta das Escrituras nos conduz muito além de um método.
Deus fala porque deseja relacionamento.
Ele fala através da sua Palavra.
Ele fala pela ação do Espírito Santo.
Ele fala conduzindo seus filhos em comunhão com Cristo.
Ele fala formando em nós a imagem do seu Filho.
Por isso, a pergunta mais importante não é apenas: “Deus está falando?”
A pergunta é: “Meu coração está disposto a ouvir e obedecer?”
Jesus encerra esse ensino dizendo:
João 10:27
“As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem.”
Perceba a ordem estabelecida por Cristo.
Primeiro existe o relacionamento.
Depois vem o reconhecimento da voz.
Em seguida nasce a obediência.
E dessa obediência floresce uma vida que manifesta Cristo ao mundo.
Que o Senhor nos conceda um coração ensinável, sensível à sua Palavra e completamente dependente do Espírito Santo. Que aprendamos a caminhar diariamente em comunhão com Cristo, porque é nesse lugar que a voz do Bom Pastor deixa de ser um acontecimento raro e passa a fazer parte da vida normal daqueles que pertencem ao seu rebanho. Somente assim viveremos não apenas tempos de visitação, mas a realidade gloriosa da habitação de Deus em seu povo, por meio de Jesus Cristo, nosso Senhor.
